sábado, 27 de outubro de 2012
Abrindo a alma no turbilhão incomensurável de animais assassinos travestidos de vento como as pedras da cidade imantadas de ódio, granítica e incomensurável asfáltica virtude despejada como lodo no meio fio da virtude que não mais existe que uma verdade além desse fastio de vida apodrecida em toda essa humanidade que tanto amei e tanto ódio de mim merece, esse ódio que talvez seja o melhor de mim, minha natureza que não consegue se traduzir em atos de minha vontade, essa já falida, arrebentada por tudo que evitei, aviltei, que vergonha essa de me olhar no espelho e me reconhecer em todas as mentiras que me imputei, agora que a morte é tão mais próxima e afetiva, no caos sangrento onde não consegui realizar a pureza da alma, se é que ela existiu em algum momento......
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O inferno é azul
O inferno é azul.Ponto, não se descute mais.Estavam certos os egípcios antigos que atribuíam essa cor à dimensão temerária, além dessa vida de aquém morte.Se como dizia um poeta, cinza é a teoria, verde é a árvore da vida, não hesito em afirmar: azul é o inferno.Para demonstrar, algo que não se pode em verdade demonstrar, uso sempre um famoso auto-retrato de Van Gogh em azul; tudo azul, traje, fundo, olhar, além do oceânico azul do céu, mais além dos confins da torpe realidade de cotidianos sombrios.Sim, o coração voador do holandês genial, ensandecido pelo amor e pelo desespero, disse tudo: o inferno é azul.
De todos os maravilhosos auto-retratos que ele fez, esse é o que mais me toca a alma, o que me levou a , durante uma visita no Museu D'Orsay, ficar paralisado diante dele, arrebatado por uma alma completamente pura e despida diante dos olhos, usando recursos tão limitados como cores ou pincéis, translúcida em sua arrebatadora beleza infernal, infernalmente azul.Já com lágrimas nos olhos, fui retirado do transe por um horripilante turista japonês que queria que eu tirasse uma foto dele ao lado do quadro.Mas que tolice!O quadro não havia, havendo sim uma complexidade de azuis que se manifestavam na organização de uma coisa que podemos chamar, por meio da linguagem da pintura, de um quadro.
Sim, meu caro Van Gogh, cá entre nós, de um cachimbeiro para outro - não ouso falar de um pintor para outro porque pintores são seres mortais e você, para mim, já pertence ao reino das entidades -, você tinha razão: o inferno é azul.Tantas vezes vi o inferno da alma em seus azuis desesperados!Sim, havia os amarelos, tão dolorosos, mas esses sempre tinham um quê de esperança; como os vermelhos, vulcânicos, apaixonadamente postados ao lado dos verdes, as paixões em conluio amoroso pelas cores de sua paleta, tão amorosa e desesperada como sua sensibilidade que não podia caber nesse planeta.Mas o azul, o azul!O azul da Noite Estrelada, aquela noite azulada mergulhada em tamanha escuridão da alma em azul escuro, azul prussiano angustiado, as estrelas desesperantes gritando em meio ao caos do universo, a grande noite universal do homem apreendida por seu coração generoso de artista puro e bom e honesto e ridiculamente apaixonado por tudo e por todos, com convém a uma alma como a sua.
Sim, o inferno é azul!Como vermelho, amarelo e azul, no amálgama de sua alma de poeta da paleta, são os tons de essência dessa sua tão generosa alma, essa tão atormentada alma que se traduziu em linha, forma, cor e coração, que nos chegam hoje pelo mistério da arte da pintura, do seu engenho , do seu esforço de artista e homem dotado de tantans paixões, tantas falácias que nos fazem tão frágeis, como tudo o que é frágil nesse ponto oscilante do universo que habitamos, tão vago e impreciso em seu destino como qualquer um de nós, seja simples ou complexo, animal ou mirenal, poeta ou pintor, essas duas coisas que em você encontraram a tradução irreconhecida pela insensibilidade dos seus irmãos, encontraram a verbalização precisa do que prescinde de verbo.
Sim, meu amado "suicidado pela sociedade", ainda navego nos azuis daquele seu auto-retrato, ainda flutuo nas pinceladas nervosas e sábias de seu engenho e arte, afogado naquelas duas esferas de desespero, seus olhos, no oceano caloroso de seu atormentado universo desabrido em...azul.
Sim, se cinza é a teoria, verde é árvore da vida, vermelho é o calor de seu amor, azul é o inferno.Porque inferno e céu sempre estarão ligados um ao outro , por meio de seu coração aflito, meu caro maluco holandês voador, um coração muito maior que todos os girassóis, que todos os sóis que em esplendorosa grandeza por você nos foram legados.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Andando.E pensando de bicicleta
Experiência ciclística:
Madrugada alta, três horas.Nada como uma madrugada completamente livre.Pedalando solitário, ruas vazias, um silêncio oculto como se o universo parasse.Parou ele, universo, parou a cidade ou parei eu nesse vazio em que se pode até ouvir o ruído dos pneus?Tantos milhares, milhões, nessa hora mergulhados na face oculta da vida que não se revela à luz do dia.Única hora em que me sinto humanizado em meio à fúria calcinante dessa cidade.Eu, o silêncio, a bike, um vazio que poderia me levar a pedalar ao infinito...
domingo, 21 de outubro de 2012
Algumas reflexões outubrinas
Fico pensando se o pessimismo
não tem alguma origem genética.Filosoficamente é uma forma de pensar muito
antiga, de ver as coisas sobre o prisma do “quanto pior puder , pior
será”.Assim como o otimista, vejo o pessimista como inconveniente em algumas
situações.Dialogamos com as duas partes em nosso interior; diálogo confuso,
cacofônico, sempre inconcluso e cheio de estridências.Ontem estava vendo o
filme Melancolia, daquele diretor nórdico famoso e com freqüência acusado de
fascista, Lass von Trier.Aliás, o pensamento fascista é sempre acusado de ser
pessimista, o que não tem consistência filosófica como juízo de valor, pelo
menos para quem se interessa em pesquisar o interior das carnes ocultas do
fascismo(fenômeno universal e cósmico ,segundo o Jorge Mautner).Por exemplo: os
nazistas sempre acreditaram que podiam ganhar a guerra, mesmo quando essa já
estava perdida.Haja otimismo!Mas sabem como é : em termos de Europa, acima da
Normandia , quanto mais próximo do círculo polar,as coisas já começam a ficar
cinzentas.É só pensarmos no gênio Bergman.O filme que vi tem imagens muito
bonitas e é bem construído, nos personagens, nas falas, nos ritmos.Sim, com
efeito é um porre de pessimismo.Mas na arte o pessimismo funciona, não faz
mal.Na vida real não adianta muito porque atrapalha o cotidiano, tanto quanto o
otimismo ingênuo e cegante.Em termos reais, mais fácil seria trabalharmos em
termos estatísticos e, com isso, muita coisa ganharia consistência, até mesmo o
amor sendo uma possibilidade estatística, apesar desse mundo.Mas enquanto um
planeta Melancolia não nos vem livrar desse outro lado, d’aquém morte, a gente
ainda vai continuar olhar para o céu buscando alguma estrela nova.Queira-se ou
não.A vida é um troço muito teimoso...
O tempo todo fico esperando ter coisas que nem ao menos sei que
existem.O tempo todo fico pensando em todo o tempo em que fiquei pensando nisso
, deixando que as coisas que existem
deixassem de existir.Mas se nem ao menos o tempo existe, apenas resiste à
passagem de si mesmo pelo espaço em que se define...
Nada como deitar na cama, antes de pegar no sono, acender um cachimbo
fiel, olhando a fumaça se projetando para cima, nuvens acinzentadas que se
perdem na escuridão do teto.Meus devaneios flutuam como a fumaça que se esvai
desse cachimbo, sobem e se desfazem ambos, fumaça e sonho, um pouco como o eu
que sou e nunca se encontra,;para o alto, para o ar, alma flutuando para longe da terra dos
homens.
Corpos que se coabitavam e ,em
sua convivência de corpos, faziam coabitar duas almas, numa jornada incerta,
sem começo ou fim.Ou melhor: com freqüência ,um fim, quando a morada não alberga mais nada.
Dia desses cometi um erro : ouvi seguidamente duas sinfonias de Villa
Lobos, antes de dormir.O resultado foi que dormi sonhando com trilha musical,
aquele enxame sonórico-amazônico do Villa norteando meus sonhos, aquele caos
sinfônico tão brasileiro fazendo parte desses sonhos, se é que os tive.Acordei
me imaginando numa floresta tropical, quando em verdade não passava de meu
trôpego quarto; tão pleno de poeira,cheiro de livros e restos de cinza de
tabaco por todo o lado , o mundo e a vida real, além dos sonos e sonhos, lá
fora me esperando, aquém, muito aquém das florestas imaginárias e das iaras
perigosas.
sábado, 20 de outubro de 2012
A beleza de certas moças
A beleza de
certas moças
Ah, a beleza
de certas moças que nos ferem como o sol!
O que fazer
com esse calor que não estanca ou esse frio por dentro que não cessa, o que
fazer com essa inútil ternura? Essa beleza que, entre delicada e astuta, vai
cortando suavemente a inobservância de nosso silêncio.
E vai essa
beleza corroendo as vísceras pelos olhos e deixa lá suas feridas criadas, nesse
frágil repositório de sonhos que finge carregar nossa alma.Deixa cicatrizes que
olhamos com carinho.Na espera da presença corruptível da morte que devorará a
tudo e a todos, a insana certeza de que essa beleza não morrerá.Por que mãos
tão limitadas?Por essa moça e sua beleza, quem sabe ,cavaria uma trilha ao
paraíso que jamais encontrarei a não ser pela rota indicada por elas.Há o mundo
e seu horrores, palco de cruéis absurdos inenarráveis; mas há também a beleza
dessas moças que nos redime da morte, do vazio, de todo o asco que nos entra
pelas veias em cada despertar doloroso.Há a noite de animais sombrios, uivos
desesperantes, assim como há o sorriso dela.O que fazer com a gravidade do
momento de seu sorriso?
O tempo
passa como o sol se põe, a cicatriz permanece.Eu a miro como quem olha uma
folha pousada na superfície líquida em que agora meu corpo se
transforma.Indelével e suave como um sorriso,
aquele sorriso que nunca se descreve , nunca se tem, paraíso numa boca
de luar agora em corpo de mulher.Cicatriz-sorriso que me faz querer morrer ao
ver; onde estará essa beleza amanhã?Sensível a qualquer toque...Ah, como dói a
beleza de certas moças!O que fazer com essa lembrança, o que fazer com essa
inescrupulosa ternura?
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
sono de moça
Sem pretensão para M.C.
sono de moça
O tempo passou
o sonho
voz distante da infância
vive, revive, flutua
na tez suave de teu sono de moça.
Nem todas guirlandas de nuvens arrancadas aos céus,
nem ao menos todos os tons roubados do arco-íris
a ilustrar o silêncio dessa beleza.
Quem vela a clausura desse teu silêncio?
para onde correm as coisas de menina, moça,mulher
marejando em sussurros em tua cabeça pousada?
Entre morte e vida cai o instante, a sombra
alguma pura luz cortando o coração
partido
na comoção do que se vê e sempre se perde.
Apenas a certeza
de ver ou sentir
na sombra de teu suave talhe
a carícia de um anjo a te embalar.
sono de moça
O tempo passou
o sonho
voz distante da infância
vive, revive, flutua
na tez suave de teu sono de moça.
Nem todas guirlandas de nuvens arrancadas aos céus,
nem ao menos todos os tons roubados do arco-íris
a ilustrar o silêncio dessa beleza.
Quem vela a clausura desse teu silêncio?
para onde correm as coisas de menina, moça,mulher
marejando em sussurros em tua cabeça pousada?
Entre morte e vida cai o instante, a sombra
alguma pura luz cortando o coração
partido
na comoção do que se vê e sempre se perde.
Apenas a certeza
de ver ou sentir
na sombra de teu suave talhe
a carícia de um anjo a te embalar.
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